Meu primeiro amor por Turguêniev


Já faz algum tempo que me dedico a estudar literatura russa. Meu primeiro contato com ela, há anos, fora com Dostoiévski, porta de entrada à Rússia para leitores do mundo inteiro. Depois vieram Gógol, Pushkin, Tchekhov e, inevitavelmente, Tolstói. De todos, hoje considero Dostoiévski o menor em aspecto de estilo, e, talvez, o maior no entendimento do psicológico humano. Provavelmente Nabokov concordaria comigo quanto ao estilo, mas, hoje, nenhum deles é a estrela aqui. Um dos últimos autores de minha lista, a quem não conhecia e, definitivamente, teria lido com muito prazer antes de me debruçar sobre “Crime e Castigo”, era Ivan Turguêniev.

Recentemente li a novela “Primeiro Amor”, cujo título que não me agradou num primeiro momento, assim como “A Educação Sentimental”, de Flaubert. Tanto que evitei a leitura por algum tempo. Porém, para minha surpresa, não há nada de melodramático nessa narrativa de pouco mais de cem páginas. Muito pelo contrário: Turguêniev tem uma prosa afiadíssima, incisiva, precisa e bela, assim como a de seu amigo e admirador, Gustav Flaubert.

“Eu caminhava de cabeça baixa. De repente, ouvi vozes; olhei para o outro lado da cerca — e fiquei petrificado. Um espetáculo estranho apareceu diante de meus olhos.

A poucos passos de mim, numa clareira, entre arbustos verdes de framboesas, estava uma menina alta e formosa, num vestido de listras cor-de-rosa e com um lencinho branco na cabeça; em torno dela se aglomeravam quatro jovens, e ela batia alternadamente na testa deles com pequeninas flores cinzentas […]. Minha espingarda escorregou e caiu no chão, esqueci tudo, devorei com o olhar aquela cintura esbelta, o pescoço, as mãos bonitas, os cabelos louros, ligeiramente despenteados por baixo do lencinho branco, os olhos inteligentes semicerrados, as pestanas e a face tenra abaixo delas…”.

Na cena acima vemos as primeiras manifestações de interesse ao sexo oposto, o primeiro deslumbramento e espanto diante de uma beleza idealizada, além dos primeiros desejos lascivos de um erotismo singelo, quase lúdico.  As descrições de Turguêniev são leves, líricas e sonoras; ele é um artesão da palavra, que busca a leveza e impacto no texto. Não só isso, suas descrições pensam, estendem-se em pequenos monólogos que levam o leitor pela narrativa igual a quem guia uma criança pequena. O leitor é ingênuo, por natureza, e o autor de “Pais e Filhos” o leva sutilmente.

Através dos olhos de Vladimir Petróvich, numa regressão aos seus dezesseis anos, vemos a angústia, a alegria e, acima de tudo, a dor da hesitação no primeiro amor de um jovem. Não só isso, vislumbramos um pouco o estilo de vida russo. As relações sociais da Rússia Czarista, pós a abolição da servidão pelo Czar Alexandre II, em 1861 – ato que libertou mais de 20 milhões de servos que viviam sob regime de escravidão velada -,  são retratadas com maestria em breves cenas: crianças trabalhando em uma fábrica de papel de parede ou uma velha pobre que morre na última cena, por exemplo. Também são retratadas a decadência da nobreza e ascensão de uma burguesia acostumada a cargos públicos e regalias adquiridas por mérito – como assim em “A Morte de Ivan Ilich”, de Tolstói.

O quadro do humano é pintado em toda sua beleza e decadência. As falas das personagens são organizadas de maneira quase teatral. A ação dá-se em torno do conflito e da crise; isto é: vontades opostas que se acirram de tal modo a gerar uma perturbação, elemento que faz o protagonista reagir ou, neste caso, hesitar. A hesitação através de monólogos internos ou omissão do agir é uma das peças chave de “Primeiro Amor”. As vozes da narrativa, a fala de cada personagem, as divagações do narrador, cada diálogo é o estalo de um chicote: rápido, preciso, e que move a o texto adiante.

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Ao lado de grandes escritores, grandes mulheres

O casamento de Sophia Bers e Liev Tolstói, que durou 48 anos e o ajudou a escrever as obras-primas “Guerra e Paz”  e “Anna Karenina”, começou quando Tolstói resolveu se libertar do maus hábitos de sua juventude. Escritor proeminente e herói do cerco a Sevastopol, Tolstói também bebia muito, era adepto dos jogos de aposta e mulherengo. Ele confessou tudo isso a Sophia, prometendo que “não havia nenhuma mulher na vila, exceto raros casos, que iria procurar ou evitar”.

A propriedade de Tolstói em Iasnaia Poliana impressionou Sophia por sua pobreza. A cama do conde não possuía lençóis, a louça era velha e gasta. Sophia assumiu as responsabilidade de manter a economia na propriedade rural, que somou aos afazeres como esposa e mãe. Mas o que a mantinha contente em tais condições era seu papel no trabalho do amado.

Ela era muito mais do que uma dona de casa – Sophia se tornou a secretária, agente e copista de Tolstói. Ela passou a limpo o texto inteiro de “Guerra e Paz” por sete vezes e promovia as obras do marido – ela chegou, inclusive, a contatar a viúva de Dostoiévski para pedir conselhos. “Nunca senti minhas faculdades intelectuais, e até mesmo poderes morais, tão livres e capazes de produzir”, escreveu Tolstói sobre os tempos felizes de casamento.

O período mais difícil foi quando Tolstói começou a desenvolver seus próprios conceitos filosóficos no fim da vida. Ele ainda escrevia longas cartas de amor para sua mulher, mas já começava a negar os conceitos de família e propriedade. “Não sei dizer quando nos dividimos, mas eu não tinha forcas para seguir seus ensinamentos”, escreveu Sophia.

No início da depressão, Tolstói se afastou de sua propriedade. Sophia foi encontrar Liev em uma pequena estação ferroviária, onde ele estava à beira da morte, só para testemunhar o último suspiro do marido. A vontade de terminar a edição completa das obras de Tolstói ajudou Sophia a superar a dor. “Espero que as pessoas sejam indulgentes em relação a alguém que pode ter sido muito fraca para ser esposa de um gênio e de um grande homem”, escreveu.


Originalmente publicado em Gazeta Russa.

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História é para fazer boi dormir

história para boi dormir

“Os livros não são escritos para quem gosta de poemas que fazem alguém chorar, ou, em prosa, adora personagens nobres. Somente crianças podem ser desculpadas por se identificarem com os personagens de um livro ou sentirem prazer com histórias de aventura mal escritas.”

– Vladimir Nabokov (autor de Lolita)

Convém definir logo que a narrativa, seja ela um romance, novela ou conto, é a exposição da Condição Humana. Não é mais a defesa ou crítica de ideias, moral e dos bons costumes, como na época de Dostoiévski, Tolstoi ou Voltaire; nem uma simples história cheia de reviravoltas.

A narrativa não se confunde com a história ou enredo, que são os artifícios dos quais o escritor se utiliza para transmitir uma mensagem. Essa mensagem é a Condição Humana, que é a Natureza Humana (conjunto de traços do homem, o modo como fomos feitos, incluindo maneira de pensar, sentir ou agir) em determinados contextos e situações; a forma de ser e viver o mundo, a inquietação dos românticos, a dor do viver nos existencialistas, o remorso do criminoso, a magia no fantástico. A grandeza de um livro não pode ser medida em fatores como o enredo, embora este contribua para o conjunto da obra – mas ainda assim é apenas um dos fatores. O escritor não é só um contador de histórias.

Nabokov não poderia ter resumido de forma mais direta. O bom leitor lê um livro não apenas por identificar-se com um personagem – não que isso não possa acontecer -, mas pela capacidade sedutora do autor, pela construção da narrativa, o jogo de palavras, o cuidado com as formas, os conflitos internos e externos das personagens. O bom leitor olha o todo, não apenas a história. O leitor sistemático, isto é, aquele que ultrapassa a barreira dos infanto-juvenis, irá aprender isso com o tempo, com a experiência e com o desenvolvimento de parâmetros.

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Nós somos Madame Bovary

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“Madame Bovary c’est moi!” – Flaubert

Poucos livros me provocaram como Madame Bovary, de Gustav Flaubert. Este artigo me veio à mente como uma resenha, porém Madame Bovary não poderia se limitar a uma mera resenha, e por um simples motivo: é um livro sobre o nada. Talvez eu esteja distorcendo as palavras de Flaubert, que em suas correspondências, numa das cartas trocadas com sua amante, Louise Colet, na qual ele diz que Madame Bovary é um livro “écrit sur rien” [escrito sobre o nada]. O que o autor quis dizer foi queMadame Bovary não teria amarras externas, seria um livro com tamanha força e estrutura narrativa que existira por si – tanto que inaugurou o romance moderno, independente de ser realista ou naturalista, ou se encaixar em quaisquer ismos; os ismos e istas se vão, resta apenas a obra -.

Sobre a história? Bastante simples: Emma Bovary é uma mulher adultera. Existe trama mais universal? A personagem de Emma, nos dias de hoje, pode ser até considerada cliché pela quantidade de outras figuras influenciadas por ela  na literatura, como, por exemplo, Anna Karenina – personagem título, com a diferença que Anna sofre com o peso da religião – , de Tolstoi, ou Luísa, de O Primo Basílio, Eça de Queirós.

A história – que é um artifício para expressar a Condição Humana – é bastante simples, com espaços para inúmeras outras intrigas de núcleos paralelos que Flaubert não desenvolveu pelo simples fato de estar preocupado com a arte, não com o enredo. Não que não exista profundidade na trama, pelo contrário; Emma toma, quase que por completo, o espaço da narrativa para si. Ela é uma personagem sedutora, que aparece com muita sutileza, ao contrário de Charles, o marido estúpido e bonachão – que, apesar de sua estupidez, é o personagem mais nobre do livro -. A diferença entre os dois é notável. Mas há tanto o que falar sobre os aspectos deste livro que tentarei me ater aos detalhes mais fundamentais, por hora, sem entrar em mérito de técnica literária – sem dúvida o ponto mais fascinante de Madame Bovary; costumo, inclusive, dizer que nenhum escritor está completo antes de lê-lo -. Possivelmente outros artigos sobre o assunto virão.

Somente para ilustrar como se dão essas diferenças entre marido e esposa, durante cena inicial do romance, Charles aparece tomando toda a atenção da sala de aula, ainda adolescente, sendo levado como novato pelo diretor da escola e vestindo uma roupa pequena demais para o próprio tamanho com um chapéu ridículo – que é uma metáfora para toda sua fealdade -.  Já Emma aparece aos poucos através da visão do jovem médico – na realidade, Charles era oficial de saúde, um nível abaixo de médico – e vai tomando relevância aos poucos. Primeiro ela é tratada pelo narrador – ainda aproximado da visão de Charles – como “uma moça”, depois “a filha do Sr. Rouault”, “Srta. Emma”, e “Emma”. Nos aparece como um figura distante, aproximando-se aos poucos, nos seduzindo com suas nuances e personalidade reservada.

Pois bem, o que faz  Madame Bovary ser tão grandioso é a própria Emma. Como disse Flaubert, ainda em uma das citadas correspondências:

“Ce qui distingue les grandes génies c’est la généralisation et la création. Ils résument en un type des personnalités éparses et apportent à la conscience du genere humain des personnages nouveaux.” 

[O que distingue os grandes dos gênios é a generalização e a criação. Eles resumem em um único indivíduo personalidades esparsas e levam  a consciência do gênero humano a personagens novos.]

É esse poder de síntese que encontramos em Shakespeare – referido por Bloom como criador do Humano – e Cervantes. É essa personalidade um pouco vulgar, violenta, luxuriosa e rebelde de Emma expressa a Condição Humana. Emma é uma Don Quixote de saias, cheia de sonhos e esperanças frustradas, correndo atrás de amores falidos ao invés de moinhos de vento. Ainda citando as cartas de Flaubert:

“Une âme se mesure à la dimension de son désir, comme l’on juge d’advance des cathédrales à la hauteur de leurs clochers”

[Uma alma se mede pela dimensão de seu desejo, como julgamos de avanço as catedrais pela altura de suas torres]

Talvez a maior façanha de Flaubert tenha sido criar uma personagem tão pequena e versátil que demonstra essa máxima. Emma, apesar da existência burguesa e insignificante, é uma dessas torres que ressaltam na existência humana; sua alma é um riacho que corre com a intensidade dos oceanos. Nabokov se refere a ela como uma filisteia, uma mulher vulgar. Disso eu discordo, Emma é romântica e, até certo ponto, ingênua – tanto que se deixa enganar pelos amantes -; longe de vulgar, ela é a imagem de nosso ateliê de sonhos quebrados. Nós somos Madame Bovary.

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Oscar Wilde, o Criador de Coisas Belas

oscar wilde

Recentemente, enquanto pesquisava algumas obras em meu acervo, me deparei com “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Fazia bastante tempo desde que o li pela primeira vez, então decidi reler alguns trechos e relembrar dos inúmeros fatores que fizeram dessa obra um cânone da literatura universal, um livro que deve ser lido não só pela ousadia temática, mas principalmente pela Estética. É a Estética como objetivo da arte que, assim como Flaubert, Wilde defendia; e que o faz no prefácio da segunda edição de seu único romance.

A carta a seguir foi escrita em resposta aos críticos de arte que recriminaram “O Retrato de Dorian Gray” como sendo imoral e depravado. Wilde, mediante a pressão das editoras, dividiu alguns partes da versão original, de 1890, com 13 capítulos, excluiu outras e criou novas cenas e personagens para amenizar o conteúdo polêmico, tendo a versão de 1891 20 capítulos. Ele, assim como outros devotos da Estética, ou Filosofia da Arte, acreditava que a Arte possui um valor intrínseco, não tendo imoralidades; é amoral: seu propósito é , senão, apenas a Beleza – quando me refiro à Beleza, me refiro a tudo aquilo que, ao ser observado, causa algum nível de movimentação interna (emoção) no observador -.

O prefácio a seguir é da edição bilíngue da Editora Landmark, 2012, SP.

“PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO REVISADA PELO AUTOR E PUBLICADA EM ABRIL DE 1891 PELA WARD, LOCK AND BOWDEN COMPANY

O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é o objetivo da arte. O crítico é aquele que pode traduzir de outro modo, ou em um novo material, as suas impressões sobre as coisas belas.

As formas mais elevadas ou baixas da crítica é um modo de autobiografia. Aqueles que encontram significados feios nas coisas belas são corruptos e sem serem encantadores. Isto é um defeito.

Aqueles que encontram significados belos nas coisas belas são aqueles que as cultivam. Para esses há esperança. Eles são os eleitos para quem as coisas belas significam apenas beleza.

Não existem fatos morais ou imorais em um livro. Os livros são apenas bem ou mal escritos. Isto é tudo.

O ódio do século 19 pelo Realismo é a raiva de Calibã ao ver o seu próprio rosto diante de um espelho.

O ódio do século 19 pelo Romantismo é a raiva de Calibã ao não poder ver o seu próprio rosto em um espelho. A vida moral dos homens constitui partes do tema usado por um artista, mas a moralidade da arte consiste do uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar nada. Mesmo as coisas que são verdadeiras podem ser provadas. Nenhum artista possui compreensão da ética. Uma compreensão ética em um artista é um maneirismo imperdoável de estilo. Do mesmo modo, nenhum artista é mórbido. O artista pode expressar todas as coisas. O pensamento e a linguagem são os instrumentos artísticos de uma arte. O vício e a virtude são os materiais artísticos para a arte. A partir do ponto de vista da forma, a tipologia de todas as artes é a arte do músico. Do ponto de vista do sentimento, o ofício do ator é a tipologia. Toda arte em si é superfície e símbolo. Aqueles que vão além da superfície o fazem sob seu próprio risco. Aqueles que desvendam o símbolo o fazem sob seu próprio risco. É o espectador e não a vida que a Arte realmente espelha. A diversidade de opinião sobre o trabalho da arte demonstra que o trabalho é novo, complexo e vital. Quando os críticos divergem, o artista permanece de acordo com si mesmo. Nós podemos perdoar um homem por tornar algo útil, mesmo que ele não a admire. A única desculpa para se produzir algo inútil é aquilo que se admira intensamente.

Toda forma de Arte é completamente inútil.

OSCAR WILDE”

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