A triste alegria da arte

 

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Eu estava conversando com uma amiga quando ela me perguntou: por que as pessoas mais tristes se apegam tanto à arte? Essa pergunta me fez pensar. Isso não se dá por ela ser alguma forma de terapia (ao menos não deveria ser), eu garanto. Quem escreve, pinta, toca ou cria para se afirmar, se sentir melhor, faz um desfavor a si mesmo e à arte.

A arte é uma experiência penosa, quando nos faz bem, fazemos mal a ela. Se não fosse assim desgastante não existiria no meio artístico tantos suicidas, alcoólatras, fumantes, drogados, misantropos, loucos, infelizes, e por aí vai.

Mas a arte é, acima de tudo, paixão (Eros), e paixão é algo tão importante quanto a própria vida, mais importante, eu diria. Você não vê por aí “a vida e amor de Cristo”, mas “a vida e paixão de Cristo”. O amor (Philia) é bonitinho, lírico, monótono, a paixão é crua, ardente, imprevisível. Uma vida sem paixão – ou paixões – é uma vela sem chama, inútil. Talvez para não apagarmos a chama, nos dedicamos a essa paixão em todo nosso ser.

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Queime seu Harry Potter

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Independente do mérito da qualidade do que a escritora inglesa J. K. Rowling escreve, temos de reconhecer a importância — para bem ou para mal — de seu mais conhecido trabalho: a saga Harry Potter. Há os que digam que Harry Potter não é literatura de verdade — o que pode até ser verdade —, outros que defendem a obra ferrenhamente.

Literatura não é somente contar uma história, é o domínio do meio (a escrita) o que distingue o bom escritor. O diretor de cinema ou o quadrinhista não pode trabalhar sem o conhecimento da mídia (meio) em que criam — ângulos de câmera, paleta de cores, iluminação, dramaturgia, etc. — , nem pode o escritor trabalhar sem o conhecimento da escrita.

Fora isso, a saga H.P., ao meu ver, teve — e tem — um papel importante: atrair crianças para a leitura. Quando eu tinha seis anos já andava com um livro de 300 páginas debaixo do braço, nunca mais parei com o hábito — acho que devo isso a Rowling —, porém hoje ando com Flaubert, Graciliano Ramos, Tolstói, Shakespeare, a lista é extensa.
A outra importância dou à obra é a infantilização dos leitores — ou ao menos abriu mais espaço no mercado para esse tipo de livro —. Por mais que eu tenha lido Rowling durante a infância e pré-adolescência — e lhe seja grato—, existe uma hora para seguir adiante. Se você tem mais de vinte anos, por favor, não me apareça lendo sagas infanto-juvenis. Sim, você pode fazer o que bem quiser, estou apenas dizendo que existe algo melhor. Então, se decidir sair da mesmice, queime seu Harry Potter (ou passe para a próxima geração de leitores, afinal, estou falando em sentido figurado, mas nunca se sabe… ) e siga outros caminhos. Hoje os leitores se contentam com calhamaços mal-escritos de estruturas dramáticas previsíveis, pouca densidade e muito, muito dramalhão. A indústria apela à emoção. E pior, no formato de “sagas” — a melhor maneira de bater a carteira dos leitores. O conflito foi reduzido ao mero enredo; mitologias e folclores transformados em aventuras baratas, pouco coerentes e pouco originais — aí ao menos Tolkien se salva: se não inovou na escrita, inovou na criação algo próprio e conciso, um vasto universo criativo.

O leitor está cada vez mais acostumado a ler mais e mais do mesmo. Não digo que é preciso ler Joyce e fingir entender, ou andar com Grande Sertão Veredas debaixo do braço — o que provavelmente causaria escoliose. Mas “Jogos Vorazes”, “A culpa é das estrelas”, “Divergente”, “Percy Jackson” e, claro, “Harry Potter” são livros que contêm pouca, ou quase nenhuma, literatura. Como diz Harold Bloom, são apenas mais um produto a ser vendido, e só.

“É um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária.” — Harold Bloom.

No final das contas, a decadência da literatura são os próprios escritores.

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Meu primeiro amor por Turguêniev


Já faz algum tempo que me dedico a estudar literatura russa. Meu primeiro contato com ela, há anos, fora com Dostoiévski, porta de entrada à Rússia para leitores do mundo inteiro. Depois vieram Gógol, Pushkin, Tchekhov e, inevitavelmente, Tolstói. De todos, hoje considero Dostoiévski o menor em aspecto de estilo, e, talvez, o maior no entendimento do psicológico humano. Provavelmente Nabokov concordaria comigo quanto ao estilo, mas, hoje, nenhum deles é a estrela aqui. Um dos últimos autores de minha lista, a quem não conhecia e, definitivamente, teria lido com muito prazer antes de me debruçar sobre “Crime e Castigo”, era Ivan Turguêniev.

Recentemente li a novela “Primeiro Amor”, cujo título que não me agradou num primeiro momento, assim como “A Educação Sentimental”, de Flaubert. Tanto que evitei a leitura por algum tempo. Porém, para minha surpresa, não há nada de melodramático nessa narrativa de pouco mais de cem páginas. Muito pelo contrário: Turguêniev tem uma prosa afiadíssima, incisiva, precisa e bela, assim como a de seu amigo e admirador, Gustav Flaubert.

“Eu caminhava de cabeça baixa. De repente, ouvi vozes; olhei para o outro lado da cerca — e fiquei petrificado. Um espetáculo estranho apareceu diante de meus olhos.

A poucos passos de mim, numa clareira, entre arbustos verdes de framboesas, estava uma menina alta e formosa, num vestido de listras cor-de-rosa e com um lencinho branco na cabeça; em torno dela se aglomeravam quatro jovens, e ela batia alternadamente na testa deles com pequeninas flores cinzentas […]. Minha espingarda escorregou e caiu no chão, esqueci tudo, devorei com o olhar aquela cintura esbelta, o pescoço, as mãos bonitas, os cabelos louros, ligeiramente despenteados por baixo do lencinho branco, os olhos inteligentes semicerrados, as pestanas e a face tenra abaixo delas…”.

Na cena acima vemos as primeiras manifestações de interesse ao sexo oposto, o primeiro deslumbramento e espanto diante de uma beleza idealizada, além dos primeiros desejos lascivos de um erotismo singelo, quase lúdico.  As descrições de Turguêniev são leves, líricas e sonoras; ele é um artesão da palavra, que busca a leveza e impacto no texto. Não só isso, suas descrições pensam, estendem-se em pequenos monólogos que levam o leitor pela narrativa igual a quem guia uma criança pequena. O leitor é ingênuo, por natureza, e o autor de “Pais e Filhos” o leva sutilmente.

Através dos olhos de Vladimir Petróvich, numa regressão aos seus dezesseis anos, vemos a angústia, a alegria e, acima de tudo, a dor da hesitação no primeiro amor de um jovem. Não só isso, vislumbramos um pouco o estilo de vida russo. As relações sociais da Rússia Czarista, pós a abolição da servidão pelo Czar Alexandre II, em 1861 – ato que libertou mais de 20 milhões de servos que viviam sob regime de escravidão velada -,  são retratadas com maestria em breves cenas: crianças trabalhando em uma fábrica de papel de parede ou uma velha pobre que morre na última cena, por exemplo. Também são retratadas a decadência da nobreza e ascensão de uma burguesia acostumada a cargos públicos e regalias adquiridas por mérito – como assim em “A Morte de Ivan Ilich”, de Tolstói.

O quadro do humano é pintado em toda sua beleza e decadência. As falas das personagens são organizadas de maneira quase teatral. A ação dá-se em torno do conflito e da crise; isto é: vontades opostas que se acirram de tal modo a gerar uma perturbação, elemento que faz o protagonista reagir ou, neste caso, hesitar. A hesitação através de monólogos internos ou omissão do agir é uma das peças chave de “Primeiro Amor”. As vozes da narrativa, a fala de cada personagem, as divagações do narrador, cada diálogo é o estalo de um chicote: rápido, preciso, e que move a o texto adiante.

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Ao lado de grandes escritores, grandes mulheres

O casamento de Sophia Bers e Liev Tolstói, que durou 48 anos e o ajudou a escrever as obras-primas “Guerra e Paz”  e “Anna Karenina”, começou quando Tolstói resolveu se libertar do maus hábitos de sua juventude. Escritor proeminente e herói do cerco a Sevastopol, Tolstói também bebia muito, era adepto dos jogos de aposta e mulherengo. Ele confessou tudo isso a Sophia, prometendo que “não havia nenhuma mulher na vila, exceto raros casos, que iria procurar ou evitar”.

A propriedade de Tolstói em Iasnaia Poliana impressionou Sophia por sua pobreza. A cama do conde não possuía lençóis, a louça era velha e gasta. Sophia assumiu as responsabilidade de manter a economia na propriedade rural, que somou aos afazeres como esposa e mãe. Mas o que a mantinha contente em tais condições era seu papel no trabalho do amado.

Ela era muito mais do que uma dona de casa – Sophia se tornou a secretária, agente e copista de Tolstói. Ela passou a limpo o texto inteiro de “Guerra e Paz” por sete vezes e promovia as obras do marido – ela chegou, inclusive, a contatar a viúva de Dostoiévski para pedir conselhos. “Nunca senti minhas faculdades intelectuais, e até mesmo poderes morais, tão livres e capazes de produzir”, escreveu Tolstói sobre os tempos felizes de casamento.

O período mais difícil foi quando Tolstói começou a desenvolver seus próprios conceitos filosóficos no fim da vida. Ele ainda escrevia longas cartas de amor para sua mulher, mas já começava a negar os conceitos de família e propriedade. “Não sei dizer quando nos dividimos, mas eu não tinha forcas para seguir seus ensinamentos”, escreveu Sophia.

No início da depressão, Tolstói se afastou de sua propriedade. Sophia foi encontrar Liev em uma pequena estação ferroviária, onde ele estava à beira da morte, só para testemunhar o último suspiro do marido. A vontade de terminar a edição completa das obras de Tolstói ajudou Sophia a superar a dor. “Espero que as pessoas sejam indulgentes em relação a alguém que pode ter sido muito fraca para ser esposa de um gênio e de um grande homem”, escreveu.


Originalmente publicado em Gazeta Russa.

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História é para fazer boi dormir

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“Os livros não são escritos para quem gosta de poemas que fazem alguém chorar, ou, em prosa, adora personagens nobres. Somente crianças podem ser desculpadas por se identificarem com os personagens de um livro ou sentirem prazer com histórias de aventura mal escritas.”

– Vladimir Nabokov (autor de Lolita)

Convém definir logo que a narrativa, seja ela um romance, novela ou conto, é a exposição da Condição Humana. Não é mais a defesa ou crítica de ideias, moral e dos bons costumes, como na época de Dostoiévski, Tolstoi ou Voltaire; nem uma simples história cheia de reviravoltas.

A narrativa não se confunde com a história ou enredo, que são os artifícios dos quais o escritor se utiliza para transmitir uma mensagem. Essa mensagem é a Condição Humana, que é a Natureza Humana (conjunto de traços do homem, o modo como fomos feitos, incluindo maneira de pensar, sentir ou agir) em determinados contextos e situações; a forma de ser e viver o mundo, a inquietação dos românticos, a dor do viver nos existencialistas, o remorso do criminoso, a magia no fantástico. A grandeza de um livro não pode ser medida em fatores como o enredo, embora este contribua para o conjunto da obra – mas ainda assim é apenas um dos fatores. O escritor não é só um contador de histórias.

Nabokov não poderia ter resumido de forma mais direta. O bom leitor lê um livro não apenas por identificar-se com um personagem – não que isso não possa acontecer -, mas pela capacidade sedutora do autor, pela construção da narrativa, o jogo de palavras, o cuidado com as formas, os conflitos internos e externos das personagens. O bom leitor olha o todo, não apenas a história. O leitor sistemático, isto é, aquele que ultrapassa a barreira dos infanto-juvenis, irá aprender isso com o tempo, com a experiência e com o desenvolvimento de parâmetros.

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